Texto do genro de meu querido amigo Dr. Mauro Gatti.

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Um texto que merece ser lido do início ao fim. Verdadeiro, corajoso, fiel, tal qual Mauro Gatti. Seu genro Flavio faz um desabafo pessoal em nome da memória, da história e da GRANDEZA de Dr. Mauro Gatti! Texto publicado na pagina pessoal – Facebook- de Flavio Marques Vicari.

“Maurão”, ETERNAMENTE meu amigo!


 

Publicação autorizada pelo autor.

 

 

Desabafo de um Altinopolense

 

Alô!

“Flávio, tenho uma má notícia para você: morreu o Dr. Mauro”.

Três minutos se passaram até que retornasse à realidade. Pensei: “preciso avisar a família e parecer forte o suficiente para melhor ajudar a todos”. O caminho até Altinópolis desde Ribeirão Preto foi longo e doloroso, assim como o velório, o enterro, o primeiro dia, a missa de sétimo dia… a ficha caiu! A casca de homem forte, segurando a barra da família, continua. Acho que tenho enganado bem (até que leiam esta carta).

 

Eu, particularmente, tinha no Mauro algo diferente de um sogro. Nossa relação era como de grandes amigos e compartilhávamos as angústias da batalha do dia-a-dia, nossos sonhos idealistas, erros e acertos, desafios e desejos para o futuro. Também discordávamos sobre muitos outros temas com posicionamentos tão distintos que só amigos assim o fariam. Para o Maurão (assim o tratava) tenho certeza de que era esta relação de amizade que permeava seu comportamento – comigo e com os demais genros.

Pude observar, em seu velório, o quanto era querido como pessoa e respeitado e admirado como profissional. Muitas foram as homenagens e manifestações de carinho, sobretudo da população atendida nas cidades de Altinópolis e Santo Antônio da Alegria (afinal, quase todas as pessoas de zero a quarenta anos residentes nestas cidades foram um dia atendidas pelo Dr. Mauro).

 

Mas não é a nossa relação, tampouco a dor da perda o tema que inspira este texto. Quero falar de um tema tão fortemente presente em nossas vidas: política em Altinópolis. Mais especificamente quero discutir alguns atos políticos de um grupo que possui um projeto de poder muito bem estabelecido e que para se perpetuar vai à caça de tudo aquilo que possa interromper esta hegemonia. Vamos dar nome aos bois: os mandatos de Dr. Pio, Dr. Marco Ernani e Ferreira (e sua fiel equipe) estiveram juntos (não exatamente no mesmo partido, não necessariamente unidos por algum laço de amizade) governando a cidade pelos últimos 27 anos – série interrompida por quatro anos de um amarrado governo Wadis que teve em seu primeiro dia de governo a grata surpresa de que todos os arquivos da prefeitura foram perdidos!

Me lembro até hoje em que, ainda criança, em 1988 ouvia os comícios do Dr. Pio idealizando uma cidade dinâmica e moderna, prometendo acabar com os “coronéis” que dominavam Altinópolis. Eu pensava: Coronéis? Bem, sou apenas uma criança, este homem é muito culto e deve ver o que não vejo.

 

E via.

 

Por coronelismo encontrei na enciclopédia termos como: hipertrofia privada sobre o poder público; fraude eleitoral e a desorganização dos serviços públicos; possui como “linha-mestra” o controle da população; a figura de uma liderança local – o Coronel – que define as escolhas dos eleitores em candidatos por ele indicados.

Passados quase 30 anos, um doutorado, um ano fora do país, dois filhos e diversos erros e acertos na vida, entendi: o termo coronel se referia como metáfora àqueles conservadores que não permitiam o desenvolvimento da cidade, e assim o faziam para que se perpetuassem no poder. Me pergunto: não vivemos hoje o mesmo coronelismo, ou o que André Heráclito do Rêgo chama de Neocoronelismo de Estado? Não vivemos cercados pelo mesmo grupo que traz para votar em dia de eleição municipal diversas vans lotadas de pessoas que não residem e tampouco conhecem ou possuem vínculo com Altinópolis? Que conquistou votos de famílias inteiras negociados por empregos na prefeitura ou “sorteios direcionados” de casas populares? Que realiza acordos políticos com rivais históricos para manutenção do poder (e estes “pseudorivais”, o que fariam se estivessem no poder?)? Que protagoniza escândalos dignos de um CQC colocando na linha de frente jovens inocentes que assumem responsabilidade pelo que não fizeram com uma fidelidade kamikaze? Que veladamente castra iniciativas empreendedoras que poderiam dinamizar a anestesiada economia de Altinópolis? Que acabou com a saúde e educação da cidade? Do grupo que “criou” a lei que… “Dispõe sobre a proibição da pratica do nepotismo e nepotismo cruzado ou transnepotismo no âmbito dos poderes legislativo e executivo, na forma que especifica e dá outras providências” e quando voltou ao governo extinguiu a mesma?

Isto não é coronelismo?

Falta ainda o pior exemplo de controle da população: “expulsar” pessoas que trabalham na cidade só porque pensam de forma diferente, questionam ou participam de eleições como oposição. Os dois piores momentos da vida profissional do Dr. Mauro foram por este motivo. O primeiro – sua demissão do hospital de Altinópolis, quando não mais pode clinicar e atender as crianças da cidade. Isto ocorreu no início da década de noventa por… pasmem… questionar a intervenção da prefeitura na gestão do hospital (será que já previa o escândalo dos atendimentos?)! E não foi só. Muitos profissionais com raiz na cidade, como por exemplo o Dr. Luis Geraldo – seu amigo e parceiro, também foram “convidados” a trabalhar fora de Altinópolis. Resultado: muito tempo na estrada, e perdemos o Dr. Luis Geraldo em acidente de trânsito. A segunda ocorreu ao final do governo Wadis. Com a vitória nas urnas, este grupo não apenas o demitiu como também criou diversos subterfúgios para prejudicá-lo, como por exemplo não pagar os direitos de rescisão (com direito a um show de defesa e depoimento envergonhado do bom moço Tostão). Mauro entrou na justiça e começou a receber apenas o que era de direito quase dois anos após sua demissão – em várias parcelas que só vencerão alguns meses após sua morte. O Mauro foi prejudicado, porém não se entregou. Ele teve uma percepção errada sobre sua segunda saída. Achava que a população de Altinópolis não o queria aqui. Estava enganado. Grande parcela da população o queria, e corretamente não relacionava sua permanência à eleição de candidato A ou B. O povo não acompanha os acontecimentos políticos, a maioria vota com interesses pessoais (emprego, favor, ou até mesmo uma camisa) acima dos interesse pelo coletivo, e não sabe 10% dos acontecimentos. Isto não tem nada a ver com “ser querido ou não”. Quem não o queria aqui era o coronel, pois era preciso “exorcizar os inimigos”.

É este policiamento misturado com revanchismo que leva diversos funcionários públicos a temer expor suas opiniões, pensamentos e discordâncias. Até quando serão forçados a se esconder para manter seus empregos?

 

Disserto sobre a patrulha, não sobre aspectos específicos da administração. Se o fizesse, resumiria que este grupo proporcionou retrocessos e alguns avanços que não são suficientes. Dinamismo e modernidade observamos na vizinha Santo Antônio da Alegria. Jovem e atuante, o prefeito Ricardo deu um 7 a 1 nos prefeitos que tivemos nos últimos tempos. Basta ver o quanto Santo Antônio evoluiu e o comparar: o quanto paramos no tempo? Precisamos despertar para a mudança. Os novos tempos pedem novas práticas e o fim da “velha política”. Para mudar deveremos ter coragem de expor, lutar sem nos acovardar. A coragem que teve o Dr. Mauro Gatti.

 

“Paz sem voz, não é paz. É medo”. (Marcelo Yuka)

 

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