UM PUDIM ENVENENADO

Autor: Nenhum comentário Compartilhe:

UM PUDIM ENVENENADO

Roberto Zuccolotto Tardelli

Foi um dia horrível para todos nós. Um desses dias que bem poderiam jamais existir. Não houve quem não sentisse um travo amargo na boca e não tenha ficado com seus olhos parados num mirante infinito; ficou um pouco mais difícil seguir a vida. Naquele momento, ficamos imobilizados, parados, perguntando, chamando…

O dia em que estupidamente uma criança, linda e enternecedora criança foi despedaçada por ladrões de quinta categoria “naquela que já foi a mais bela cidade que o mundo inteiro consagrou”, como dedilha o samba lindo de Paulinho da Viola.

A estupefação inicial logo deixou de ter sentido e foi substituída por um vozerio raivoso, que foi subindo, saiu das ruas, invadiu os plácidos palácios de (des) governos, as assembléias e uma guerra santa contra a violência começou a mobilizar seus soldados de sempre: um governador prometendo colocar milhões de policiais nas ruas, um outro governador prometendo milhões de presídios de segurança mais que máxima, programas de auditório debatendo com modelos que saíram nuas em capas de revistas masculinas, faixas em estádios, minutos de silêncio antes da bola rolar…

Um daqueles facinorosos ladrões tem dezesseis anos. De imediato, antes de alguém imaginar que a pouquíssima idade do rapaz já é em si mesma quase autoexplicativa, gritou-se que ele ficará preso por apenas três anos e depois sairá da Febem… Os donos da verdade ofereceram o pudim: bastaria reduzir a idade de imputabilidade penal, medida de política pública de combate milagreiro à violência.

Isso é demagógico, simplista, evasivo e chega a ser cruel. Como medida de política pública, só servirá para aprofundar ainda mais o fosso de desigualdade social em que vivemos redução pura e simples, uma canetada legislativa, não resolverá o problema, podendo agravá-lo ainda mais, se houver algum combustível ideológico nessa mistura que leva mais cadeia e menos idade e muita prepotência.

Se vier, contudo, no bojo com uma série de medidas públicas, talvez, aí, poderíamos prestar-lhe a atenção que merece. A Constituição Federal, ao disciplinar a competência dos municípios, a eles comete a educação infantil – em outras palavras, creche – com evidente aporte de recursos. Sugiro aos amigos que se esforçam para ler essas palavras que perguntem a nossas empregadas domésticas (que devem ser registradas, como qualquer trabalhador…) quem toma conta de seus filhos, enquanto elas atenciosamente nos servem um café… Eu asseguro que muitas responderão que deixam com vizinhas, mães, irmãs, com outras filhas maiores, de onze, doze anos… É o início do ciclo perverso da desatenção social, que culmina com cadeia aos dezesseis anos.

Essas crianças passarão por uma escolarização medíocre e interrompida, com graves conseqüências para suas vidas. Convido os leitores também para um passeio um pouco indigesto, é vero, pelo Fórum Criminal, qualquer fórum criminal, de qualquer cidade.

Procure observar o amigo quantas são as pessoas jovens, muito jovens, que não sabem sequer escrever seu nome. Desenham o nome com dificuldade e acanhamento. Verá que são muitas, desesperadoramente, são muitas.

É para essas pessoas que o discurso da redução da imputabilidade penal se destina; esse discurso, que é sério – eu sou, pessoalmente, a favor dessa redução –vem desacompanhado de qualquer medida de implementação de qualidade ao ensino público, não há uma letra sequer dos nossos indignados governantes sobre educação infantil. Nem uma palavra desses senhores a respeito de melhoria nas condições de habitação. O discurso é só raivoso. É só vingativo.

O pudim que nos oferecem tem o veneno da demagogia e o fermento do senso comum. Assado no forno da exclusão social.

Publicado em 02/2007

Dr. Roberto Zuccolotto Tardelli

É promotor de Justiça em São Paulo.

Com amor sempre,

Iza

 

 

Artigo Anterior

Carta de “Evandro Losacco” a Ademir Feliciano

Próximo Artigo

Altiaqui visita zona rural e mostra o estado das estradas!

Confira também

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *