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História de pescador. Sucuri assassina engole pescador em Barra do Garças

 

 

Sucuri assassina, anaconda assassina, a cobra devoradora de homens: são muitos os títulos adequados a essa lenda.

A história de cobra gigante que engoliu um homem percorre o mundo e a Internet. O trágico acidente teria acontecido em Bornéu, na Venezuela ou em Barra do Garças, às margens do Rio Araguaia, estado do Mato Grosso, conforme a versão e o contador da história.

A vítima pode ter sido o doutor José Ronaldo, dentista de São Paulo.

Vamos aos fatos e às fotos.

O título da página é sugestivo: história de pescador. Mesmo como história de pescador o exagero é muito grande.

A história diz que o doutor José Ronaldo foi pescar no Rio Araguaia com três amigos, se afastou deles e não voltou ao acampamento. Os três amigos o procuraram, sem sucesso, até que avistaram rastros de cobra. Seguiram os rastros do animal.

Três dias depois, avistaram uma enorme sucuri de 12 metros dormindo placidamente às margens do rio. A cobra tinha uma parte do corpo deformada e logo os amigos desconfiaram que o pior havia acontecido: o José Ronaldo fora engolido pela sucuri!

Usando um revólver e pedaços de paus eles atingiram a cabeça da cobra, matando-a e em seguida a carregaram até o acampamento, onde a colocaram na carroceria de um caminhão e foram para Barra do Garças.

Aí começam a surgir as evidências de que se trata realmente de mais uma história de pescador.

O tamanho da sucuri

Primeiramente, a cobra das duas primeiras fotos não é uma sucuri. As manchas na pele indicam que se trata de uma píton. Para os herpetólogos, é uma Python reticulatus natural da Ásia. A terceira foto não mostra muitos detalhes e, provavelmente, trata-se de outra cobra fotografada em outras circunstâncias. Talvez produto do Photoshop em mãos de pessoa habilidosa.

Continuemos.

Os narradores falam em 12 metros de cobra. Esse seria o tamanho da Eunectes murinus, a sucuri que, segundo a foto, não é uma sucuri mato-grossense, mas uma píton asiática.

E o que uma píton asiática estaria a fazer às margens do Rio Araguaia no continente americano? Seria uma píton desorientada? Uma serpente extraviada? Nada disso.

Veja nesta outra página duas fotos de cobras sendo carregadas. Na primeira, sete homens seguram uma enorme serpente. As duas linhas brancas, a horizontal e a vertical, têm o mesmo tamanho da altura do homem mais alto, o do centro da foto. Considere que ele tem 1,90 m de altura.

O esforço dos sete homens parece não ser muito grande, mas a cobra mediria duas ou no máximo três vezes a altura do homem. Comprimento total da cobra: na maior das hipóteses, pouco menos de seis metros.

A segunda foto mostra seis homens carregando outra cobra grande. Aqui também as duas linhas, horizontal e vertical, têm o mesmo tamanho de um dos homens. O tamanho da cobra seria cerca de seis metros considerando que o homem tem 1,70 m de altura.

Imagine agora uma cobra com 12 metros de comprimento. Será que apenas três homens conseguiriam transportá-la até o acampamento?

Os pescadores não dizem qual a distância desde o acampamento até o lugar onde a cobra foi encontrada mas, segundo a narrativa, dá pra inferir que foi um pouco longe. Eles contam que passaram três dias no rastro da cobra.

Mesmo considerando que ela estivesse a apenas cem metros do acampamento, não dá para acreditar que três homens tenham conseguido transportar uma cobra de doze metros de comprimento. Não só devido ao peso, mas também devido à distribuição desse peso.

De qualquer forma, o peso da cobra seria igual ao peso do pescador engolido mais o peso de uma-cobra-muito-grande. Muito peso ;))

O caminhão e o fotógrafo

Segundo o texto, a cobra teria sido morta nas proximidades da cidade de Barra do Garças - MT, Brasil. Veja os detalhes da placa da caminhonete e do rosto do fotógrafo.

Um dos caracteres da placa, o segundo, não está muito legível mas os demais são D_2259AI. Pelo formato da placa e pelos caracteres percebe-se que não é placa de veículo matriculado no Brasil. Qual país adota esse formato de placa?

Quanto ao rosto do fotógrafo: as suas feições não são exatamente as de um brasileiro.

Ainda quanto ao tamanho da cobra. Compare o tamanho da cobra com o tamanho da caçamba da caminhonete - e não caminhão como diz a história. Ou é uma caminhonete muito grande ou então a cobra não tem doze metros de comprimento.

O formato da barriga da cobra.

Compare a barriga da cobra enquanto o almoço (ou jantar) ainda estava dentro dela com o formato do homem com parte do corpo dentro da cobra - terceira foto.

O formato da barriga sugere a existência de um animal, talvez um porco ou um veado. Mesmo se fosse um homem, as pernas do homem não estariam lá dentro da cobra e só aparecem na terceira foto.

Tem mais.

Os pescadores levaram a cobra para a cidade de Barra do Garças e lá abriram a barriga do animal (terceira foto).

Fica a pergunta: já que eles levaram a cobra para a cidade, por que abriram a cobra no meio do mato e não num lugar mais adequado? Talvez até no IML.

Ademir Felicano

 

Última atualização (Sáb, 16 de Janeiro de 2010 15:08)